quinta-feira, setembro 29, 2005

Verão em tempo de guerra

Tenho a péssima mania de guardar "coisas". Consigo acumular bastante papel, desenhos antigos, jornais, flyers, bilhetes de cinema (de filmes memoráveis), cartazes de peças de teatro (que nunca penduro na parede)etc. Sempre que haja um motivo que me desperte eu guardo para recordar.
Hoje, enquanto tomava o pequeno-almoço, e arrumava as coisas à pressa, como é habitual, encontrei um DN, de Agosto 2004)que contém um pequeno artigo da Rosa Lobato Faria acerca do melhor Verão da sua vida - chama-se "Verão em Tempo de Guerra" - ...não resisti a ler,outra vez, nem tão pouco a partilhar.
O texto que vos deixo é um bocadinho denso, peço-vos, no entanto, que o leiam com calma e paciência, para se poderem transportar, como eu o fiz, para o Alto Alentejo, em 1940, em plena 2ª Guerra Mundial e para sentirem as reminiscências genuínas.


" Costumávamos ir para a praia em Agosto e para o campo em Setembro. Mas naquele Verão do ano de 1940 eu tinha oito anos, havia guerra na Europa e tudo foi diferente.
O meu pai, oficial da Marinha de Guerra, foi chamado aos Açores em comissão de serviço, levou com ele a minha mãe e a minha irmã e, para minha grande alegria, deixou-me no Alto Alentejo em casa de uns tios que eu adorava, cuja filha mais velha, com mais ano e meio do que eu, era a minha melhor prima e a minha maior amiga.
Da Guerra não tínhamos a menor ideia. Nesse tempo, não havendo televisão, as crianças era crianças, isto é, poupadas a toda e qualquer notícias de catástrofe. Não houve praia, talvez por causa da guerra, mas sobretudo no calendário da minha vida, para eu aprender coisas que jamais iria esquecer. A distinguir um plátano de uma olaia, por exemplo. Uma poupa de um melro ou de um tentilhão. A aprender o sabor da maçã colhida da macieira, posta a rebrilhar limpando-a no bibe, trincada com dentes recém estreados. A saber as veias que a pele da ameixa tem do lado de dentro, mirando-a a contraluz enquanto o sumo nos escorre pelo queixo. A nódoa do pêssego, a doçura do figo.
A cantiga das mulheres a trabalhar no campo e a poesia que nela há. O desejo de agarrar essa poesia e fazê-la minha, passada a limpo por uma luz que começava a despontar-me a alma.
A amizade, a cumplicidade e o risco partilhado. As coisas proibidas, só nossas, como sairmos da cama às cinco da manhã e ficar na janela do nosso quarto, virada a nascente, à espera do Sol, da pompa e glória do horizonte, da maravilha de dourados e carmesins, da sinfonia dos pássaros, do deslumbramento do amanhecer.
Nunca, em Lisboa, eu tinha imaginado que tais coisas existissem. E mesmo, nos anos anteriores, quando passava o mês de Setembro naquela mesma casa, a minha prima, dona daquelas verdades e ciosa delas, não me tinha iniciado no mistério. Eu era uma menina da cidade que vinha de férias, excluída de todos os tesouros.
Agora sim. Eu pertencia à terra. Sabia como ela cheirava depois da chuva, como ela guardava o grão e o devolvia em espigas, como era fofa quando lavrada, coberta de musgo nos lugares sombrios.
Vi a uva, pisada pelos homens, transformar-se em vinho, vi a azeitona, no lagar, transformar-se em azeite. Vi nascer um vitelo e soube o que era dar vida, vi morrer um cachorro e entendi a existência da morte. Compreendi o trabalho racional vendo um cão reunir, organizar e transportar o rebanho. Observando as formigas num vai-vem laborioso, armazenando o seu celeiro. Conheci ruínas habitadas por fantasmas e percebi as crenças do povo, abeirei-me do sobrenatural.
Vi como tudo era harmonioso na natureza, eterno, equilibrado, e pressenti Deus. Descobri, para tudo ser perfeito, a liberdade. De correr sem barreiras, sem medos, sem horários. A fome trazia-nos a casa à hora certa das refeições, e no calor da tarde retinha-nos quietas, à sombra, a aventurarmo-nos na leitura, outra descoberta prodigiosa. E o fim do dia, no esplendor do poente, a cantiga das cigarras a roer a tarde era a voz mística do silêncio a que só nós tínhamos direito.
Este Verão foi apenas o princípio de um ano inteiro que ali passei. Não seria a pessoa que sou hoje se esse ano não tivesse acontecido. Transporto, desde aí, tudo o que realmente vale a pena."


Rosa Lobato Faria in Diário de Notícias.

1 Comentários:

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29 de setembro de 2005 às 11:24  

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