quinta-feira, outubro 06, 2005



Um dia, uma amiga deu-me este poema num papelinho, anexado a um livro, que me ofereceu, por altura do meu aniversário. Isto porque tenho uma adoração pela chuva que é inexplicável. Quando todos reclamam que está a chover e que as núvens bloqueiam o sol, que se sentem deprimidos e odeiam sair à rua quando assim é... eu fico simplesmente e especialmente feliz!
Desde miúda que me esquecia dos chapéus de chuva, na escola, no autocarro, onde fosse... aguardando pela impaciência dos meus pais para pararem de mos comprar. Sempre adorei senti-la na pele, ria baixinho sempre os outros praguejavam e corriam para se abrigar dela. "Actua-me" como um alimento num estômago vazio.


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas...

Talvez um dia entenda o teu mistério...
Quando inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

Florbela Espanca


1 Comentários:

Anonymous teresa disse...

(...)parece-me que os Homens ignoram a força de Eros; se conhecessem construir-lhe-iam templos grandiosos e altares, far-lhe-iam sacrifícios sumptuosos; para já nada de tal em sua honra, quando isso é que seria preciso. Ele é, de todos os deuses, o mais filantropo, o protector dos humanos e médico de males que, se fossem curados, resultaria daí a mais perfeita felicidade para a raça dos homens. Tentarei, portanto, expor-vos a sua força e em seguida ensina-la-eis aos outros. Mas devo, em primeiro lugar, falar-vos da natureza humana e das suas paixões. Com efeito, a nossa natureza original não era o que é hoje, longe disso. A princípio havia três géneros entre os Homens e não dois como hoje, o masculino e o feminino; um terceiro era composto dos outros dois: o seu nome subsistiu, mas a coisa desapareceu: então, o real andrógino, espécie e nome, reunia num único ser o príncipio macho e fêmea; agora já não é assim e só o nome ficou como uma injúria. (...)(...) Como disse, tinham uma forma esférica e deslocavam-se circularmente, de acordo com a sua origem; daí derivam também a sua força terrível e o seu vigor. Tendo então concebido soberbos pensamentos , empreenderam (...) subir até ao céu para atacar os divinos. Então, Zeus e os outros deuses deliberaram sobre o castigo a inflingir-lhes. (...) Depois de uma penosa decisão, Júpiter dá finalmente a sua opinião: "Creio que há um meio para que continue a haver homens e para que, tornados menos fortes, estes fiquem libertos do seu desrespeito; vou cortar cada um deles em dois, ficarão mais fracos e, ao mesmo tempo, aumentando o seu número, ser-nos-ão mais úteis, dois membros bastar-lhes-ão para caminhar; e, se reincidirem na imprudência, cortá-los-ei de novo em dois, de modo que terão de andar de pé-coxinho." (...)Uma vez realizada esta divisão da natureza primitiva, eis que cada metade, desejando a outra a procurava; e os pares, estendendo os braços, agarrando-se no desejo de se reunirem, morriam de fome e também de perguiça, porquanto não queriam fazer nada no seu estado de separação. Quando uma metade perecia, a segunda, abandonada, procurava outra a quem se agarrar, quer fosse uma metade mulher completa, quer a metade de uma homem, e a raça extinguia-se assim. Compadecido, Zeus imagina então um meio: desloca os seus sexos para frante - até aí tinha-os atrás, procriando-se e reproduzindo-se não uns graças a outros, mas na terra, como fazem as cigarras. (...) De facto, é desde então que o amor mútuo é inato aos homens, que recompõe a sua natureza primitiva, procura restituir a um a partir do dois e curar essa natureza humana ferida. Cada um de nós é, portanto, como um sinal de reconhecimento, a metade de uma peça, visto que nos cortaram, como solhas, em duas partes; e cada uma vai procurando a outra metade da sua peça (...)Assim, quando os amantes (...) descobriram precisamente a metade que é a sua, é admirável como são emplogados pela ternura, o sentimento de parentesco e o amor; já não consentem em dividir-se um do outro, por assim dizer, um momento que seja. E estes são os que ficam juntos até ao fim da vida e que nem sequer conseguiriam definir o que esperam um do outro! É inverosímil que o prazer físico explique o seu vivo desejo de estarem juntos: é evidente que as suas almas desejam outra coisa, mas não podem dizer, mas que pressentem e insinuam. (...) " O vosso desejo não é assimilar-vos um ao outro tanto quanto possível e não vos deixardes nem de noite nem de dia? Se é isso que quereis, também eu quero fundir-vos, ligar-vos um ao outro e dos dois que sois fazer um só: assim, enquanto viverdes, será como um único ser, com uma vida comum, e quando morrerdes, mesmo no Hades não sereis dois mortos, mas uma única sombra. Reflecti se é esse o vosso amor e se este futuro vos satisfaz..."(...)

Platão, in Banquete

26 de outubro de 2005 às 22:01  

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